A minha vontade de usar maquiagem vem desde pequenininha e foi herdada da minha mãe. Ela era MUITO vaidosa, sabe? Tinha muitas maquiagens, cuidava religiosamente da pele e vendo ela com todas aqueles cores e cremes só pensava que queria ser assim também. E sou!

Tenho o Hey Cute, que sempre falou sobre beleza negra e hoje tem o tema como foco principal, há 10 anos e olhando para trás vejo o quanto eu aprendi sobre maquiagem e a relação dela com a minha cor. Se antes, mesmo amando maquiagem, eu tinha medo de usá-la de certas formas por causa da cor da minha pele, hoje eu não só amo cada vez mais como também uso cada vez mais, sem medo, entendendo e realçando a minha pele de uma forma que antes não fazia.

O mercado também mudou muito, né? As bases cinzas e alaranjadas continuam pipocando por aí, algumas marcas não fazem muita questão de se preocuparem com a pele negra e ainda é preciso mudar muito, porém podemos comemorar algumas coisas sim. Em 10 anos falando e consumindo muita maquiagem, tenho muitos aprendizados que quero compartilhar com vocês.

  • É preciso questionar as marcas sobre os tons para pele negra

Sempre que participo de algum evento de lançamento de maquiagem e tem produtos como bases, corretivos e pós, pergunto: como é a gama de tons para a pele negra? Antigamente a gente aceitava aqueles dois/três tons em meio a um mar de opções para pele clara e tava tudo bem. Hoje em dia não. Acho importante blogueiras e jornalistas de beleza questionarem isso, sabe? Sendo negras ou não.

Falei neste texto aqui sobre como a Fenty Beauty foi uma das marcas mais importantes de maquiagem no ano passado porque ela fez o óbvio: enxergou a pele negra de uma forma que nenhuma outra marca quis enxergar.  Colocou no mercado 40 tons de base, pensando em tons e subtons, e as cores mais escuras foram as primeiras a esgotar, provando que o argumento “bases muito escuras não vendem” (que já ouvi, inclusive) é desonesto até o último fio de cabelo do corpo humano.

Depois da Fenty, muitas marcas começaram a olhar para nós, pessoas negras que gostam de maquiagem e têm tons e subtons diferentes. É claro que nem todas vão conseguir fazer 40 bases, mas acho que o esforço mínimo para atender tons que vão além de três opções já é importante. Fora o fato de se atentarem a bases acinzentadas e alaranjadas que não valorizam em nada a nossa pele.

  • Nem tudo favorece o tom da minha pele, mas quem decide isso sou

Lembro da primeira vez que ouvi que não podia usar muitas cores no rosto porque nem tudo combina com a pele negra – enquanto a pele branca “aceita melhor” uma variedade de produtos. Na época eu acatei porque, boba que era, não enxerguei o racismo e o absurdo dessa fala. Já perceberam como pra pele negra tem um milhão de pode/não pode? Pois é…

Eu sei que tons que têm um fundo mais azulado não realçam a minha pele, que é mais quente e amarelada, porém a decisão de usar ou não esses tons é inteiramente minha. É aquela coisa de você se olhar no espelho e se sentir confortável com o que vê! Falei aqui sobre como a gente está mudando a nossa relação com maquiagem e o fato é: hoje em dia as regrinhas que aprendemos e propagávamos há alguns anos estão perdendo cada vez mais espaço na hora da nossa escolha final.

  • Gosto de fazer contorno no meu nariz, mas entendo o que ele significa

Eu adoro fazer contorno no meu rosto, especialmente quando uso base e sinto que a pele fica muito chapada. Porém, sei que ao fazer contorno no nariz eu estou disfarçando os meus traços e deixando-os mais finos. Eu acho muito importante a gente entender algumas escolhas que fazemos, enquanto pessoas negras, e se tais escolhas vão continuar só porque a gente quer, mesmo problematizando, ou só porque nos foram impostas. Maquiagem mesmo é uma imposição por si só, né?

Acho que a virada da chavinha para encarar isso com mais leveza é pensar: eu faço porque gosto ou porque alguém disse que eu preciso fazer para ficar mais bonita? Eu só me sinto bem quando faço isso ou sairia na rua de cara limpa? O contorno que faço no meu nariz é algo leve, realmente para devolver as sombras do meu rosto ou eu faço para modificá-lo, deixá-lo mais fino, mais próximo do nariz branco? 

  • Batom vermelho deixa minha boca ainda maior, e é isso que eu gosto nele

Lembro que achava incrível ver mulheres brancas usando batom vermelho. Era algo que eu também queria usar, mas já tinham me falado que o tom iria realçar – de uma forma ruim, é claro – o tamanho dos meus lábios. Além disso, não via muitas mulheres negras como referência usando a cor também. Com isso, a ideia do batom vermelho foi sempre uma barreira pra mim. Eu só usava gloss, bem discretinha  porque minha boca já era grande o suficiente. Quando usei vermelho pela primeira vez, foi um divisor de águas na minha relação com maquiagem.

Pode parecer besteira, mas eu lembro exatamente do momento em que usei a cor e qual era (Monte Carlo,, da NYX). Lembro que achei estranho, diferente, mas não me senti feia. Depois disso, passei a experimentar outras coisas na maquiagem e hoje, obviamente, vermelho é o meu tom favorito de batom e eu devo ter mais de 10 rs.

  • Entender o seu subtom é importantíssimo

Antigamente eu não ligava muito se meu fundo de pele era quente ou frio. Na verdade, eu nem sabia que isso existia! Hoje é a primeira coisa que penso quando vou usar maquiagem. Com isso, eu aprendi que maquiagens com fundo quente realçam o meu tom de pele, que iluminador com fundo dourado ou bronze é sempre meu melhor amigo, assim como blushs bem avermelhados. Falando sobre base, sabendo o meu subtom eu consigo escolher melhor os produtos de preparação para pele para que eles fiquem perfeitos, sem criar uma máscara cinza ou laranja no meu rosto. 

Voltando ao que disse no segundo ponto, tirando os itens base/corretivo/pó, saber o que realça a sua pele não te impede de usar o que não realça, se assim você se sentir bem. Eu, por exemplo, não curto iluminadores muito rosados porque não gosto do efeito do tom na minha pele, mas se você gostar, não só pode como deve usar. Entender o que realça a sua pele é um guia, não uma prisão. 

  • A gente não precisa ter medo

Eu falo isso pra todo mundo que gosta de maquiagem: não tenha medo dos seus produtos, experimente, veja o que cada coisinha que você tem pode te oferecer! Falo para todo mundo, mas para quem tem pele negra eu falo muito mais. E falo pelo o que disse lá no início do post: sempre vai ter alguém para querer colocar regras no que você quer usar, pra dizer que tal cor não combina com sua pele negra, etc e etc.

O segredo para se livrar disso é entender a sua pele, os seus gostos e não ter medo de aproveitar maquiagem da maneira que mais gosta, da maneira que se sente mais confortável.

  • Pele negra não é difícil de maquiar, o que falta é interesse e conhecimento dos maquiadores e das marcas

Vamos falar verdades? Vejo muito maquiador falando que é difícil maquiar pele negra, vejo marcas dizendo que é difícil criar produtos para pele negra, mas pera aí… De onde vem essa dificuldade? Imagino que ao desenvolver um produto ou fazer uma maquiagem de forma profissional você estude antes, certo? Faz cursos, pesquisa, se profissionaliza… Então se todos esses processos são envolvidos para maquiar uma pele branca, porque não se interessar da mesma forma em aprender a maquiar e criar produtos para pele negra?

Por muito tempo esse argumento era usado sem muito questionamento, hoje já não dá para engolir mais, né? Se você, maquiador, não tem experiência para maquiar pele negra, pesquise, experimente, veja o que as pessoas negras têm a dizer a respeito de maquiagem, maquie pessoas negras para estudar como os produtos se comportam na pele delas.

Se você é uma marca, não use essa desculpa, não diga que produtos para pele negra não vendem porque isso é no mínimo desonesto. Consumimos MUITA maquiagem e quanto mais você, marca, se esforçar para entender nossas demandas, pode ter certeza que vai vender mais e ganhar mais notoriedade também.

Muitos aprendizados, né? E todo dia aprendendo um pouco mais sobre mercado de beleza para pessoas negras, sobre minha pele, maquiagem e questionando também o que já não cabe mais ao falarem sobre isso. E você? O que aprendeu a respeito da sua pele? Me conte nos comentários!

Imagens: Pexels | Giphy

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