Quando a gente fala sobre criar ou devolver a autoestima para uma mulher, geralmente falamos de uma maneira muito geral. Falamos sobre se sentir bonita, se sentir forte, acreditar em si mesma… Enfim, pontos que são importantíssimos para que a gente consiga aquela sensação de segurança com nosso corpo e o potencial que temos. Porém, é importante entender que somos diferentes e que nossa autoestima também precisa ser construída a partir dessas diferenças.

Todas nós queremos ver uma imagem forte por dentro e por fora em frente ao espelho, mas algumas das nossas características podem fazer com que esse caminho seja mais difícil e doloroso. Eu estou aqui para falar sobre a característica que me compete: a pele negra!

Hoje posso dizer que tenho uma autoestima deveras controlada. Ela não é perfeita, ainda duvido do quão interessante sou aos olhos dos outros, mas consigo me enxergar de um jeito mais carinhoso. Isso, inclusive, é uma novidade na minha vida. Sempre duvidei da minha beleza, fisicamente falando. Quando alguém me dizia que eu era bonita, agradecia bastante surpresa porque a cor da minha pele não me deixava pensar que eu poderia ser aceita ou elogiada dessa forma.

Na verdade, a cor da minha pele sempre fez com que eu procurasse artifícios que não fossem ligados à beleza física para me destacar. Por exemplo, eu sempre fazia questão de ser muito simpática e legal. Durante toda a minha adolescência eu era a menina super legal e simpática que apresentava outras meninas para os meus colegas. Eu era a ponte, nunca o ponto final porque beleza não me era atribuída para que eu fosse a menina bonita que despertava interesse nos outros. 

Como já disse em outros textos, quando ressaltavam a minha pele negra quase nunca era pra ser elogiada. Por isso, muitas vezes, as pessoas negras não se chamam de negras. Preferem ser chamadas de morena (que é um nome para cor de cabelo, não de pele), por exemplo. Negro não era dito de uma forma carinhosa, era xingamento. Antes de você mostrar a uma mulher negra que é ela é bonita, ela precisa aprender que sua cor de pele não a impede de ser bonita, que não precisa ter medo ou vergonha de ser chamada de negra.

Fui criada em toda uma estrutura social que mostrava que a minha pele não era bonita. E ninguém precisava me dizer isso. Eu não me via na TV, não me via nas revistas, não via pessoas como eu em diversos lugares, se tinha um papel numa novela para uma pessoa negra, ele era para ser uma escrava ou doméstica completamente inferior e desrespeitada por pessoas brancas. Então, não tinha porquê eu achar a minha pele bonita e, consequentemente, me achar bonita também.

Muitas vezes, uma mulher negra tem autoestima, mas é um sentimento que só funciona em quatro paredes, dela com ela mesma. É aquela coisa: eu me acho bonita, eu enxergo beleza na minha pele e me acho interessante, mas quando eu cair no mundo, será que vão achar também? Essa dúvida é o suficiente para que essa autoestima, construída de uma forma tão escondida e íntima, seja minada porque não é suficiente você se sentir bem consigo mesma num mundo em que não te dão aval para isso por causa da cor da sua pele.

É aquela coisa de duvidar se um cara x ou y possa pensar, nem que seja por um minuto, que você é uma mulher interessante, é sempre se preocupar em se arrumar 10x mais que mulheres brancas para tentar ser notada e respeitada como elas, é pensar em todas as características do seu rosto antes de usar maquiagem, é também pensar como seu cabelo te impede de ser aceita… Enfim, mesmo que você consiga enxergar beleza em si mesma, não consegue acreditar que os outros vão te ver assim também. 

Então, se uma mulher negra duvidar do elogio que você faz à ela, não ache que é um simples charminho. Ela realmente tem dificuldade em crer que é possível ser considerada bela pelos outros. Autoestima é construção social – e tal construção foi negada às mulheres negras que sempre viam seus corpos usados como meros objetos sexuais, suas características vistas como motivo de piada e a representatividade nula em ambientes que exalta beleza, sucesso e valorização.

Pode ser que você tenha certa dificuldade de enxergar e aceitar tudo que digo neste texto, mas converse com outras mulheres negras. Pergunte à elas como enxergam a sua beleza, pergunte à elas sobre seus relacionamentos, sobre casos que tiveram, se eles foram duradores, cheios de carinho ou se seus corpos serviram apenas para sexo e depois foram descartados como um copo plástico. Converse com outras mulheres negras. Ouça o que elas têm a dizer sobre si mesmas, isso também é uma forma de trabalhar a autoestima delas.

Pensar na autoestima da mulher negra é entender que essa é uma esfera muito complexa. Que vai além daquele elogio que você faz a sua amiga negra. Inclusive, se essa sua mesma amiga desabafar dizendo que não se sente bonita, que acha desinteressante e é solitária, o argumento “você é tão bonita, não exagera!” não vai ajudá-la em nada. Ela sabe que é bonita, ela sabe que é interessante, o problema é que a sociedade fez com ela não fosse tratada assim pelos outros, e é aí que a solidão e a auto-depreciação impera. E isso aquela foto bonita que ela posta no Instagram não mostra.

Racismo mina a gente. Acaba com nosso psicológico em vários âmbitos da vida e o da autoestima talvez seja o mais cruel. O racismo está nos pequenos detalhes que nós negras enxergamos em full HD. Fazer com que uma mulher negra se sinta bonita e interessante aos olhos dos outros é destruir a construção social que fez com que ela enxergasse o contrário. É dar voz, espaço e fazer com que sua imagem seja vista de uma forma positiva. É atribuir à mulher negra não só beleza, como também humanidade para que ela tenha força para se colocar no mundo e fazer com que a vejam com os mesmos olhos que enxerga a si mesma! 

Fotos: Nappy | Unsplash

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