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Há pouquíssimo tempo, eu “comemorava” o Dia das Mulheres sem qualquer questionamento. Pra mim, era sim uma data comemorativa, em que a gente ficava feliz ao ouvir um “parabéns por ser mulher”. Hoje em dia, o que muitos veem como mimimi (que argumento ignorante, né?), eu vejo como desconstrução. A gente não quer comemorar tanto assim o dia 8 de Março. A gente, agora, entende que a data é mais um dos nossos muitos momentos de luta.

Pra quem não sabe, o Dia Internacional da Mulher existe por causa de um acontecimento que não merece nenhum tipo de comemoração. Em 1911, o incêndio em uma fábrica em Nova York que matou 129 trabalhadoras marca uma onda de protestos que pediam pela redução da carga horária, melhores salários e direito de voto das mulheres.

Talvez, muita gente ainda não saiba disso. E é importante dizer que transformar o Dia da Mulher em algo bonitinho, em que a gente sorri e ganha flores, é um desserviço. Vivemos em um mundo completamente machista e sexista. Talvez você não queira concordar comigo, mas basta pensar um pouquinho para perceber que eu, você e todas as outras mulheres sofrem algum tipo de opressão todos os dias.

Dia da Mulher: talvez a gente não queira comemorar tanto assim! 1

O que você já deixou de fazer por ser mulher?

Você já parou para pensar sobre isso? Faça essa pergunta a si mesma. Eu fiz e cheguei a seguinte lista:

  • Não pego ônibus maquiada ou arrumada demais por medo de assédio;
  • Tenho medo de voltar tarde para casa e ser assediada por motoristas de táxi ou uber;
  • Na verdade, tenho medo de ser assediada o tempo todo, a qualquer hora do dia;
  • Não recebo prestadores de serviço quando estou sozinha em casa por medo de assédio;
  • Por medo de assédio, ando com spray de pimenta na bolsa;
  • Não viajo sozinha de ônibus, especialmente à noite;
  • Não pego ônibus muito cheio por medo de assédio;
  • Atravesso a rua quando vejo que vou passar perto de um grupo de homens;
  • Não olho quando alguém me chama na rua sem dizer meu nome;
  • Não deixo meu copo na mesa de bares e restaurantes quando vou ao banheiro;
  • Depois que fui assediada, não pego táxi ou uber sem avisar meu pai ou duas/três amigas;
  • Não ando sozinha na rua à noite;
  • Muitas vezes, não me defendo de assédio por medo do cara fazer algo pior;
  • Parei de beber bebida alcoólica quando sei que vou voltar pra casa sozinha;
  • Quando não quero ficar com alguém, automaticamente falo que tenho namorado – e mesmo assim, na maioria das vezes, tenho que me explicar porque ele não está comigo;
  • Depois de ser ameaçada por não querer continuar a ficar com um cara, parei de enviar os famigerados nudes para qualquer homem com o qual eu me relacione – mesmo que eu confie muito nele;
  • Deixei de responder chefe machista por medo de perder o emprego;
  • Passei a tentar contratar somente mulheres prestadoras de serviço;
  • and couting… 

Essa lista eu fiz em cinco minutos e nem precisei pensar muito para escrever todos os itens. Se quiserem, podem até para contribuir nos comentários.

Dia da Mulher: talvez a gente não queira comemorar tanto assim! 2
Foto: Denisenhando – https://www.facebook.com/denisenhando/

É por coisas como essas que a gente precisa parar de romantizar o Dia das Mulheres. Nós já conquistamos muito e estamos vivendo num momento maravilhoso em que tentamos fazer valer a nossa voz com muito mais força, mas ainda falta tanto, mas tanto… O que a gente precisa não são de flores no dia 08 de março. A gente pode ganhá-las qualquer dia do ano. Assim como os chocolates e outros presentes (que não incluem panelas e coisas pra cuidar da casa, ok? Vamos parar com essa palhaçada!).

A gente quer usar o Dia da Mulher para gritarmos um pouco mais alto do que já gritamos. O que a gente quer é simples: respeito. Eu quero poder beber com as minhas amigas à noite sem ter medo de ficar alta demais e ser estuprada no caminho para casa. Quero também andar com a roupa que eu quiser, com o batom que eu quiser, sem que isso seja um “convite” para o assédio dos homens. Se o cara da TV à cabo vier aqui em casa, quero resolver meu problema sem precisar chamar meu pai para ficar aqui comigo enquanto o serviço é realizado.

Vivemos em um mundo em que a mulher é constantemente oprimida simplesmente por ser mulher. Vivemos em um mundo em que o feminicídio é cometido todo santo dia. Vivemos em mundo em que nos dão flores no dia 8 de março, mas não somos respeitadas como deveríamos ser nos outros dias do ano.

Dia da Mulher: talvez a gente não queira comemorar tanto assim! 3
Feminista: uma pessoa que acredita na igualdade social, política e econômica de gênero.

8 de março não existe porque é uma delícia ser mulher. 8 de março existe para lembrar que a gente precisa lutar pelos nossos direitos e aprender que não devemos abaixar as nossas cabeças. Quando tivermos isso, toda o respeito pelo qual lutamos todas o dias, talvez a gente aceite comemorar bastante o do Dia da Mulher. Por enquanto, vamos só abrir os olhos e lutar – como sempre temos feito.

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